ELES ESTÃO DOIDOS
A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da "fast food", para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e "petiscos", a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.
A SOLUÇÃO FINAL vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam às cartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar!
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.
Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido.
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.
Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido. Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.
Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas.
Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido.
Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido.
Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido.
Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais.
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.
Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.
AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.
Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta "produto não válido", mesmo que esteja vazia.
Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.
Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.
Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.
Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.
Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica.
As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes por dia e devidamente registadas.
As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado.
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.
Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.
O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.
TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.
«Retrato da Semana» - «Público» de 25 de Novembro de 2007
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Teoria da relatividade
Uma das maiores discussões no bboypt foi à volta de um video no mínimo estranho, capaz de fazer explodir as emoções de alguns.
Isso fez-me pensar na questão de como as pessoas se criticam, apontam o dedo e estão prontas a julgar, não só no mundo do break ou da dança mas no geral.
É certo que há coisas que nos deixam a bater mal, com vontade de partir qualquer cena, mas quando se trata dum acto humano que no fim de contas não magoou ninguém penso que seria mais construtivo reflectir sobre si próprio, porque toda a gente faz cenas estúpidas de vez em quando.
Eu sei que somos impelidos a criticar e a julgar duma maneira inconsciente, mas o certo é que nós somos racionais e neste tipo de situações acho que é muito melhor manter a calma e poupar os vasos sanguíneos, respirar fundo e talvez rir um pouco do assunto.
No mundo do break em particular a crítica é muito comum, dizer que alguém não tem skills suficientes, falta de style ou originalidade, mas cada um tem o seu percurso, as suas dificuldades, as suas ambições e nunca devemos esquecer que existe muito para além do break e a nossa vida pessoal influencia quem somos e como dançamos. Isto quer dizer que os feitos de uns por mais insignificantes que nos pareçam, podem ser na realidade o maior obstáculo que essa pessoa já ultrapassou na vida/dança e comparativamente os nosso feitos podem ser insignificantes...ou seja, tudo é relativo.
Isso fez-me pensar na questão de como as pessoas se criticam, apontam o dedo e estão prontas a julgar, não só no mundo do break ou da dança mas no geral.
É certo que há coisas que nos deixam a bater mal, com vontade de partir qualquer cena, mas quando se trata dum acto humano que no fim de contas não magoou ninguém penso que seria mais construtivo reflectir sobre si próprio, porque toda a gente faz cenas estúpidas de vez em quando.
Eu sei que somos impelidos a criticar e a julgar duma maneira inconsciente, mas o certo é que nós somos racionais e neste tipo de situações acho que é muito melhor manter a calma e poupar os vasos sanguíneos, respirar fundo e talvez rir um pouco do assunto.
No mundo do break em particular a crítica é muito comum, dizer que alguém não tem skills suficientes, falta de style ou originalidade, mas cada um tem o seu percurso, as suas dificuldades, as suas ambições e nunca devemos esquecer que existe muito para além do break e a nossa vida pessoal influencia quem somos e como dançamos. Isto quer dizer que os feitos de uns por mais insignificantes que nos pareçam, podem ser na realidade o maior obstáculo que essa pessoa já ultrapassou na vida/dança e comparativamente os nosso feitos podem ser insignificantes...ou seja, tudo é relativo.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
NYC rare old battle 1984
Há coisas que não se podem voltar a repetir, e uma elas é a vibe deste tipo de cyphers...tem detalhes que me fazem alucinar e querer ter vivido noutros tempos e noutro sítio.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Será um workshop que ajude os bboys a verem o break como o eu o vejo, revelando o meu processo criativo a partir de certos movimentos escolhidos, mas que podem ser aplicados a qualquer estilo.
Eu venho da era dos 90, época em que o break sofreu um boom em termos criativos, dando origem a bboys caracteristicos com assinaturas muito pessoais...o ideal é que estas assinaturas não se afastem do que é o break para que se possa guardar a identidade e o espirito inerente às primeiras gerações de bboys e mesmo assim trazer algo de novo ao dancefloor.
Tenciono partilhar alguns moves básicos e como transforma-los de maneira a torna-los complexos, moves pessoais e moves que aprendi com alguns dos melhores bboys do mundo com quem tive oportunidade de aprender directamente. Métodos de criação, e transformação dos vossos moves de maneira a torna-los únicos....exactamente como uma impressao digital.
O break tem possibilidades infinitas...assim como tenciono que tenha o meu workshop.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
O NORTE de Miguel Esteves Cardoso
"O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes ...que já se viram.
Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas.
Mais verdades.
No Norte a comida é melhor.
O vinho é melhor.
O serviço é melhor.
Os preços são mais baixos.
Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia
Estas são as verdades do Norte de Portugal
Mas há uma verdade maior.
É que só o Norte existe. O Sul não existe.
As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.
Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.
No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista?
No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país
Não haja enganos.
Não falam do Norte para separá-lo de Portugal.
Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal.
Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal.
Mas o Norte é onde Portugal começa.
Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.
Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte.
Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa.
Mais ou menos peninsular, ou insular.
É esta a verdade.
Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.
No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa.
O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.
O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.
Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.
O Norte é feminino.
O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.
As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos.
Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.
São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente.
Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial.
Só descomposturas, e mimos, e carinhos.
O Norte é a nossa verdade.
Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.
Depois percebi.
Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte".
Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.
No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita.
O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os- Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.
O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm e dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?"
Miguel Esteves Cardoso
Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas.
Mais verdades.
No Norte a comida é melhor.
O vinho é melhor.
O serviço é melhor.
Os preços são mais baixos.
Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia
Estas são as verdades do Norte de Portugal
Mas há uma verdade maior.
É que só o Norte existe. O Sul não existe.
As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.
Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.
No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista?
No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país
Não haja enganos.
Não falam do Norte para separá-lo de Portugal.
Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal.
Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal.
Mas o Norte é onde Portugal começa.
Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.
Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte.
Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa.
Mais ou menos peninsular, ou insular.
É esta a verdade.
Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.
No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa.
O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.
O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.
Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.
O Norte é feminino.
O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.
As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos.
Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.
São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente.
Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial.
Só descomposturas, e mimos, e carinhos.
O Norte é a nossa verdade.
Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.
Depois percebi.
Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte".
Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.
No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita.
O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os- Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.
O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm e dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?"
Miguel Esteves Cardoso
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Road Trip 2010 parte 2
Bboy Pablo - Montreaux
Tessin - fronteira entre a suiça e itália..
Vista sobre Nice na primeira noite de campismo selvagem no cimo do monte
Enchemos o depósito da carrinha....e pagamos em moedas..desespero!!
Mojitos na auto estrada
Karaté b-kid
Montpellier
Sauceless - Barcelona
Pimp My Ride - edição costa da caparica
Into the jungle - Tavira
O enterro do Mogli - Tavira
Já íamos de saco na alfândega de suiça/itália
Montreaux
Tessin - fronteira entre a suiça e itália..
Vista sobre Nice na primeira noite de campismo selvagem no cimo do monte
Enchemos o depósito da carrinha....e pagamos em moedas..desespero!!
Mojitos na auto estrada
Karaté b-kid
Montpellier
Sauceless - Barcelona
Pimp My Ride - edição costa da caparica
Into the jungle - Tavira
O enterro do Mogli - Tavira
Já íamos de saco na alfândega de suiça/itália
Montreaux
domingo, 7 de novembro de 2010
Road Trip 2010
No dia 11 de Julho, numa carrinha de 9 lugares alugada, partimos de Montreaux, Suiça depois de 2 fins de semana de campismo e street shows num dos mais conceituados festivais de música do mundo, o Montreaux Jazz Festival, onde tive a sorte de assistir ao concerto da incrível Erika Badu.
O grupo de "easy riders" era constituido por 1 baterista e 1 guitarrista dos Crescent City Connection, 1 bboy do grupo 2DR, 3 Deep Trip, 1 bboy de Genéve e eu.Partimos em direcção à Cõte d'Azur no sul de França com destino a Barcelona. Na bagagem levamos sacos cama, colchões insufláveis,tendas, uma bateria, uma guitarra e um amplificador, uma sound box e claro um oleado.
As únicas datas e destinos planeados, foram o dia de partida da Suiça e o dia de chegada a Barcelona, com vista a apanhar um avião para Lisboa e no dia seguinte ir em direcção ao algarve.
Fizemos street shows em várias cidades do sul da frança, com muito sol pelo meio, campismo selvagem em praias e lugares incríveis até chegarmos a Castelldefelds, Barcelona , cidade da minha irmã de break bgirl movie1, onde ocupamos um lugar na praia durante 3 dias e 3 noites.
Daí partimos para Lisboa, onde nos fomos encontrar, com a minha namorada e a namorada de um outro membro do grupo e com o meu mano Lil'Hill a cumprir o seu serviço como Fuzileiro em terras do inimigo de qualquer tripeiro que se preze como eu, ou seja, Lisboa. Com ele fomos treinar no espaço cedido pelo bboy Waver, dos 12 Makakos. No dia seguinte partimos para Tavira onde descansamos (ou não) durante 2 semanas, com mais praia, saltos de cascatas, moto4, quantidades absurdas de mojitos, break, house, noites azeiteiras e muitas coisas à mistura.
Deixo-vos com algumas fotos das minhas férias de verão.
Despediada na estação de tavira
Algures no sul de frança
Castelldefels
Superman Pégaso em acção
Montreaux
A nossa casa
Banho depois dos shows no meio de milhares de pessoas prontas para o fogo de artificio em Cannes
Tapete vermelho festival de Cannes
O nosso quarto
Prontos para saltar - Tavira
Tavira
Mogli of the Jungle - BayWatch
continua...
O grupo de "easy riders" era constituido por 1 baterista e 1 guitarrista dos Crescent City Connection, 1 bboy do grupo 2DR, 3 Deep Trip, 1 bboy de Genéve e eu.Partimos em direcção à Cõte d'Azur no sul de França com destino a Barcelona. Na bagagem levamos sacos cama, colchões insufláveis,tendas, uma bateria, uma guitarra e um amplificador, uma sound box e claro um oleado.
As únicas datas e destinos planeados, foram o dia de partida da Suiça e o dia de chegada a Barcelona, com vista a apanhar um avião para Lisboa e no dia seguinte ir em direcção ao algarve.
Fizemos street shows em várias cidades do sul da frança, com muito sol pelo meio, campismo selvagem em praias e lugares incríveis até chegarmos a Castelldefelds, Barcelona , cidade da minha irmã de break bgirl movie1, onde ocupamos um lugar na praia durante 3 dias e 3 noites.
Daí partimos para Lisboa, onde nos fomos encontrar, com a minha namorada e a namorada de um outro membro do grupo e com o meu mano Lil'Hill a cumprir o seu serviço como Fuzileiro em terras do inimigo de qualquer tripeiro que se preze como eu, ou seja, Lisboa. Com ele fomos treinar no espaço cedido pelo bboy Waver, dos 12 Makakos. No dia seguinte partimos para Tavira onde descansamos (ou não) durante 2 semanas, com mais praia, saltos de cascatas, moto4, quantidades absurdas de mojitos, break, house, noites azeiteiras e muitas coisas à mistura.
Deixo-vos com algumas fotos das minhas férias de verão.
Despediada na estação de tavira
Algures no sul de frança
Castelldefels
Superman Pégaso em acção
Montreaux
A nossa casa
Banho depois dos shows no meio de milhares de pessoas prontas para o fogo de artificio em Cannes
Tapete vermelho festival de Cannes
O nosso quarto
Prontos para saltar - Tavira
Tavira
Mogli of the Jungle - BayWatch
continua...
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